quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sonho desesperador

A Luz turva, amarelada como num fim de tarde, era intensa e saia com a maior facilidade dentre o que parecia ser duas imensas paredes, realmente muito altas, e muito grossas, revestida com pequenos e vermelhos tijolos. Assim que as pupilas adaptaram-se a luz, senti em meu braço direito uma mão, parecia estar me segurando a muito tempo já, ainda com as mãos frente ao rosto, os malditos raios solares ainda me incomodavam a visão. Segurei no rosto dele, mas não via nada, minhas mãos pareciam encaixar-se ali, como se fossem feitos sob medida um para o outro, minhas mãos, e o rosto do mesmo - e de pele não muito macia, parecia ter barba -.

Ouvia-se pessoas, por todos os lados, mas eu não conseguia enxergar nada, olhava ao redor e olhava, não vida algo ou alguém, até que o barulho do trem na plataforma seguinte despertou-me a visão, e foi aí que cheguei a sã consciência, e notei, que estava em lugar algum, sendo apoiada pelo braço de alguém qualquer. E então, caindo em mim mais uma vez, reparei que eu era outro alguém, mas quem eu era? - Parecia ter caído naquele corpo de repente, olhei para minhas mãos e finalmente minha visão voltara, podia ver as inúmeras e descartáveis pessoas ao redor, com suas vidas vãs e apressadas, sempre, sempre apressadas, era a impressão.

A estação era enorme, paredes altas, grossas, muito escura, muitas escadas, muitos corrimões, muitas, muitas pessoas, indo e vindo, saindo do trem nas outras plataformas, entrando, descendo as escadas, ai, Deus, o que é tudo isso? Aonde eu estou? - Eu vi um relógio, eu sabia ler as horas, mas não saberia escrever meu nome. Não sabia quem eu era, ou como eu era, não conseguia lembrar-me nem de meu próprio rosto.

Assim que o trem parou na minha plataforma, ele abriu as portas, já vazio. Não era um trem azul e vermelho, grandes vidros escuros, e os das portas chegavam a refletir o tal sujeito, como os trens das outras plataformas, era o único trem marrom, sujo, acabado, com vidros mais do que riscados, e bancos quebrados, de fibra de vidro, ainda segurando-me pelo braço, com força que chegava a doer. Não o olhei por muito tempo, achei que não devia, vergonha e medo, e entramos no trem. Eu apenas o segui, não tinha mais para onde ir, se tinha ele, deveria estar tudo bem, se estava comigo, logo pensei que eu deveria confiar nele antes de me perder em mim. Continuei calada, e ele me abraçou deixando meu rosto rubro. Seu abraço era aconchegante e ponto de despertar-me vontade de fechar os olhos e deitar em seu peitoral largo, mas me contive, nem sabia quem era, deixei então que as horas me contassem. Eram quase três, ou quatro da tarde, como o sol denunciava mesmo, não me lembrava corretamente das horas, minha mente pensava em um milhão de coisas ao mesmo tempo. E a viagem foi longa. Ele usava uma boina sobre os cabelos longos e negros, logo acima da jaqueta de couro, me reclinando mais para a frente, pude ver seus óculos, mas voltei rápido à posição anterior, antes que ele se virasse e me olhasse.

Me parecia ser lindo, tentava vê-lo a cada toque, em cada estação, mas ele não se mexia, parecia refletir sobre o que faria. Então, alucinei que ele se livraria de mim, ou quem sabe, por uma esperança encantadora, ele me deixaria em casa e me chamaria pelo nome. A viagem de trem foi realmente longa, paramos na ultima estação da linha marrom, ou ao menos, era essa a cor da linha no indicador acima da porta. Já estava escuro, muito pouco o sol insistia em aparecer, mas era derrotado pela lua, que estava cheia, e brilhando intensamente, esnobando todas as luzes daquela rua de paralelepípedos, os postes negros, altamente desnecessários, realmente parecia Londres, mas a certeza era real, eu jamais teria saido do meu país de trem - a certeza de estar nele, era conseguir ler poucas coisas que eu consegui ver, e que tinham palavras contidas nelas-.

Em uma das muitas portas de madeira rústica adentramos, ele ainda me abraçava, como se fosse meu companheiro, mas não disse uma só palavra. As escadas de ardósia, assim como os demais pisos e escadas dentro da pensão me davam a sensação de frio. As paredes mal pintadas, mobilia de muito mal gosto, o sofá de corino, sujo, rasgado e seco. Aah, mas no canto havia um vaso de flor, muito bonito, o vaso, pois flores, ali não deveria ter à anos, até tinham, mas estavam mais secas que páginas de livros antigos em papiro - ri comigo mesma -. Logo, decepcionei-me com minha própria distração, oras, perdi ele falando algo com a recepcionista, isso porque estava do lado dele, e nem abraçando-me estava mais, o que me dava mais frio, ou talvez fosse esse o motivo da sensação de queda de temperatura, ele subiu as escadas, calado, e eu, fui atrás. Assim que ele abriu a porta, adentrou a mesma, no quarto pequeno, haviam duas beliches situadas nos cantos do mesmo, e no meio, quase que encostando nas camas laterais, uma cama de casal, nenhum pouco confortável ou limpa. Ele retirou os sapatos e os chutou para debaixo da cama. Me entregou seu casaco, colocando-o sobre meus ombros e deitou-se. Não sabia mais o que fazer, apenas o seguia fielmente, na esperança de que ainda me contasse algo, mesmo que não o ouvi pronunciar uma só palavra. Deitei-me ao seu lado, o colchão era fundo de tão gasto e o cobertor não me ajudava no frio, para me ajudar a constranger, a cama rangia, e havia um temeroso espelho frente a cama, numa espécie de penteadeira, que mais parecia um porta guarda-chuvas devido a tantos buracos na madeira pintada de azul, deveria ter muitos cupins, mesmo.

Assim que a respiração dele tornou-se inconsciente, eu tomei a coragem de olhá-lo, meu rosto estava quente e minhas mãos suando, mas quando o fiz, já estava tão escuro no quarto, que mal enxerguei seus ombros, estava com medo, muito medo. Minha mente vazia e sem lembranças, louca para me enganar. Arrastei meu corpo lentamente até o dele, que estava muito, muito quente por sinal, e deitei minha cabeça sobre o ombro do mesmo, assim adormecendo.

- O texto acima descrito, é fiel a um antigo sonho. Que de tão real, chego a lembrar-me detalhadamente até hoje.

1 contaminados adivertem:

O Autor disse...

que lindo nini
e, você o escreveu muito bem, por sinal. orgulho-me da irmã que tenho ^^