quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lupéluco III - Quase um ato

Alma é o nome designado à aura que ocupa o seu corpo físico.

Esta ausência de matéria nos persegue.


Lupéluco III – Quase um ato

Finalmente parecia querer acordar, sentava-se à beira da cama, a observava, era bela, e gemia de forma tão doce ao despertar, o hipnotizava e encantava cada vez mais. Ela espreguiçara, esticara os braços ainda por baixo das cobertas, logo que esfregava os olhos ela os abria, com tamanha dificuldade que seu coração começava a acelerar – Havia algo errado consigo? – e quando finalmente conseguira abri-los, não via nada mais do que vultos, tão distantes e embaçados, insuficientes para que pudesse saber o que diabos estava a um palmo do seu nariz. Sentava-se na cama, num ato de desespero, piscava inúmeras vezes e esfregara os dedos nos olhos.

- NÃO! Não se aproxime!

Temerosa, gritava com o rapaz, que gentil, segurava suas mãos, desesperado para que ela acalmasse.

- Hei, estou aqui, lembra de mim?

A voz lhe parecia tão calma, que os gritos cessaram-se instantaneamente. Deitava-se na cama, sendo guiada pela palma da mão quente do rapaz em sua testa. O mesmo deslizava a mão por seu rosto, fechando-lhe os olhos. Era extremamente calmo, e tinha cheiro de camomila, parecia tão familiar – poderia ser algum parente, ou irmão, até mesmo marido. – mesmo que não soubesse quem era, parecia estar bem com ele, tomava então a decisão de deixa-lo apenas como um amigo muito querido, transmitia tanta confiança para ela, que jamais iria coloca-lo como qualquer outra Pessoa, jamais.

O rapaz, logo tratava de fechar as cortinas do quarto, uma a uma, enquanto ela levava as cobertas ao rosto, protegendo suas frágeis retinas, embranquecidas.

- O que aconteceu? – Parecia ser óbvio para ele, certamente lhe diria a resposta.

- Ah, por quê? – Não posso ver.

Não podia ver? Jamais olharia para meus olhos então? – Não se preocupe. Foi tudo o que disse para que a conversa mais uma vez viesse a ser um silêncio tímido e frágil, mas muito confortável.

Voltava para a cama, entre o acolchoado macio e ela, que permanecia de olhos fechados, ela sentia-o sentar-se ao seu lado. Sentava-se também, deixando ambos os corpos tão próximos que chegam a tocar-se pelos movimentos do tórax devido à respiração. Ele olhava fixamente para os lábios dela, agora ainda mais vivos e intensos, rosados e chamativos, pareciam realmente macios, e o chamava insanamente. Deslizava forçadamente o olhar pelos ombros da garota até que o mesmo chegava em seus seios, ressaltados no pijama que era dele. Eram belos, arredondados e firmes, não resistindo; ele voltava para o hipnotizador par de lábios da garota, passava a língua pelos seus próprios prendendo o inferior entre os dentes, aproximava-se do seu belo rosto e devagar e astuto quanto um filhote de gato.

Ao sentir a respiração do rapaz, tão próxima e quente, assustava-se, não sabia que reação teria de tomar, era confortável a princípio, mas passava a ser incômodo a partir do momento em que a garota percebera que ele não era nada dela, nada, poderia não ser ninguém, era o que sentia – mas e se fosse alguém e ela o recusasse, o que aconteceria? Ficaria bravo com ela? – afinal, ela dependia desse rapaz, e não poderia decepciona-lo assim, tão facilmente. Deixou aproximar-se, mas quem bloqueou a ação foi o próprio rapaz, parava ele, entre as peles alvas e macias, entre o fôlego ardente e desejoso, tão sutil – Não, não posso – Ela lhe parecia tão pura. Tão intocável. Não poderia deixar-se cair em tamanha tentação, não sabia quem era, não sabia porque estava ali, apenas estava, e quase tudo o que se bastava para ele. Não sabia mais o que fazer, o desejo havia lhe tomado quase toda a porcentagem de seus pensamentos, era inútil resistir, um dia cairia na armadilha de sua bela, Branca.

Enquanto isso, o que será que ela estava pensando, questionava-se, era tão forte e puro o sentimento, tanto quanto ela mesma. Seus cabelos ruivos, porque teriam de ser de forma tão perfeita e atraente para ele?

Ela o abraçava surpreendendo-o de forma tão rápida, que o mesmo se assustava, deixando-o retraído e insensato, como se nada mais importasse naquele momento. Ela o amou, para ela estava bom, poderia morrer ali, como se fosse a missão completa, como se fosse... – Chega – ele a envolvera nos braços, ainda mais forte do que ela havia feito, assim que deitaram a cabeça nos ombros um do outro, ela suspirou, intensamente, relaxava.

Sentia-se a mulher mais protegida do planeta. Apensar de não se lembrar do rosto dele, o mesmo lhe parecia lindo e fascinante.

Desejava que ele fosse seu

que fosse dele

desejava.


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lupéluco II – Organização dos Vetores

Eu acho sentimento tão desnecessário, ainda mais quando se trata de amor. É como se você quisesse congelar a pessoa para si, para que pudesse olhar para ela durante toda a eternidade. É o egoísmo puro em forma de sentimento. Reação eletroquímica que passa pelo meu sangue até o meu cérebro. – Apenas cuide de mim, é tudo o que

eu desejo.

Lupéluco II – Organização dos Vetores

Carregava-a em seus braços firmes, enquanto ainda caminhava pela escura calçada naquela noite. Não parecia importar-se com a mulher estar desnuda. Ela observava sua pele alva refletindo a luz da lua, tão bem, que parecia sua própria. O olhar da pequena em seus braços era de todo tão inocente, ainda que fechados e com olheiras. Os lábios rosados, carnudos e atraentes, muito, muito atraentes, lhe pareciam tão macios... Delicados... Incandescentes. – E logo então chegara a sua casa. Abraçava a mulher o máximo de cuidado que conseguia, até que pudesse livrar uma de suas mãos, levava esta para o seu bolso e dali tirava a chave, levava o pedaço de metal nobre até o local destinado a esta na porta, e a girava, destrancando todas as 28 travas que nesta continham. O barulho era incômodo, e ele a pegava no colo com mais firmeza, agora, uma vez que ela se remexia – deveria estar tendo um sonho perturbado – Adentrou a sala, grande e escura.

A porta fechara sozinha. As cortinas na grande janela ao outro lado do mesmo cômodo caiam ao chão de forma graciosa, eram vermelhas, de um carmim intenso e insano. As paredes marrons, os móveis eram largos e altos, de madeira nitidamente maciça e bem tratada, reluzia. O lustre ao centro do teto parecia cálido, como se nunca tivesse falado na vida. O nobre então a levara para o quarto, subindo as escadas, degrau a degrau, cuidadoso.

Sentimento estranho este, era dó ou zelo?

Foi ai então que ele notara que estava preso à mulher, ainda nua, molhada e que de frio sua pele tomara um tom azulado, que mesmo sendo lindo, o preocupara. Deitava-a em sua própria cama, uma vez que achara que esta fosse a mais confortável da casa. Trazia ali uma toalha branca e macia, aonde vinha a passar pelo corpo sedutor da mulher, desenhava-o vagarosamente, do rosto aporcelanado até os seios e pernas. – Era tão linda, por que estava lá? Deixada... Largada – Enquanto faziam-se perguntas e matutava em sua cabeça o por quê por quê por quê...

O fato era que não tinha roupas femininas em sua casa, mas a vestiria com a melhor das suas, e cuidaria da menina até que ela acordasse. Foi então que examinara seu guarda roupa, todos aqueles trajes vitorianos, pareciam másculos de mais para ela, estragaria. Pegara um de seus pijamas mesmo, de veludo, o mais puro e brilhante. Vestira nela, peça a peça, cobrindo-a com os cobertores. Arrumava-a na cama, e por fim, não resistia em abaixar o rosto, e tocá-la, ali mesmo, com os lábios, estalando um beijo em seu semblante. – Vamos acorde – Pensava impaciente. Mal podia esperar para conhecê-la, nem para saber quem era.

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sábado, 7 de agosto de 2010

Lupéluco I - Os rubis

Em muitas das vezes eu acredito em contos de fadas. Que de uma hora a outra, uma das minhas amizades por dar certo como relacionamento sério e durasse eternidade adentro, ou, ainda, que um príncipe encantado montado num cavalo branco possa bater à minha porta – não precisava ser um príncipe, sendo amável já me bastava...

eu abri aqui o livro, Lupéluco

Acordava, molhada pelas gotas grossas da chuva, olhava para cima, via as estrelas entre as árvores. Levantava-se, ainda atordoada e colocava-se a caminhar, com seus pés descalços. Não lembrava-se do porque estava assim; sujava-se pouco a pouco, conforme caminhava na terra molhada. – As flores, tão delicadas, desmanchavam-se na carregada chuva – Notava-se de algo estranho, como se alguém a observasse, ainda andando; olhava para os lados, temerosa. Já era difícil enxergar a noite, imagine com uma chuva daquelas e sua cabeça atormentando-te conforme você tentava raciocinar.

Mas afinal, o que estava acontecendo? – Continuava a caminhar e caminhar, quando num de seus momentos de observação lenta e contínua, ela virava o rosto para frente, e entre os cabelos ruivos e molhados frente ao olhos, via aqueles avermelhados rubis, tão brilhantes, sedentos e assustadores. Pensou em correr, no início, pensou em gritar, pensou... Mas nada correspondia a seus comandos naquele instante, estava encantada, em transe, o que lhe dava uma péssima sensação de morte - Não havia nada para se lembrar, não havia porque chorar, não havia - ficava apenas a olhar aqueles rubis.

- Me parece perdida. – Disse o dono das gemas, não podia deixar de notar sua voz, aveludada e hipnotizadora. – E-e... – Tentava dizer, mas ele a impedia levando o indicador sobre seus lábios – Pegará um resfriado se ficar aqui. – E a pegara no colo, ainda imóvel, foi aí que ela notou, que estava impossibilitada de todo e qualquer movimento, não por ele, mas por fraqueza de sua própria carne, deixou ser levada, e no caminho sentia seus olhos puxarem, pesados, e como um bebê, dormia, deixando-se inerte ao bel prazer do rapaz.