sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cinestesia - Capitúlo 1



Semana passada ele havia me dito a mesma coisa, bateu a porta na e disse não. Já era a terceira vez que eu tentava, então decidi dar um basta em tudo aquilo, saí pelo pequeno portão branco ao centro do caminho de pedras cinza e arredondadas, caminhei pela calçada coberta por pequenas e amareladas folhas, já era quase outono, então? – Não que eu realmente me interessasse por mudanças climáticas, mas das estações, era a minha preferida – Arrumei meu cachecol e continuei por ali, alguns carros passaram na rua, fazendo barulho, e eu senti como se não pudesse fazer mais nada. Meu celular com aquele irritante barulho monofônico que me acordava todo dia, alertava que a bateria estava para acabar. Atravessei a rua e o guardei no bolso, era uma tarde tranquila e vazia, como elas eram de costume, entrei então no pub que eu sempre passava antes de ir para a faculdade, eu estava cansada aquele dia, não tinha vontade de sentar em meio a tantas pessoas indiferentes e descartáveis. Neri como sempre foi buscar meu chá, eu disse que desta vez me sentaria lá em cima, e ela acenou com a cabeça em resposta. Subi as escadas carregando minhas pastas enquanto um grupo de rapazes bonitos desceram a mesma ao meu lado, me sentei numa mesa ao canto contrário da escada, coloquei minha bolsa e minhas pastas sobre a cadeira ao lado, as mesas na área de cima eram menores, arredondadas e com acabamento de argamassa entre os pequenos ladrilhos escuros que pareciam colocados ali aleatoriamente, era o tipo de mesa que eu gostava de deslizar os dedos, a sensação de que a qualquer momento eles iriam cortar meus dedos pelas pontas vivas me faziam sentir certo teor de adrenalina.

Logo chegou meu chá, havia como sempre um biscoitinho de sésamo amanteigado que no pub eles serviam com os chás e cafés – apenas com cafés na verdade, sendo que eu era a única pessoa que, acredito eu, iria lá para tomar chá – Coloquei o açúcar, quantidade regulada, por causa da solubilidade da água que estava menor, mexi o líquido rosado com a delicada espátula de plástico que ficava no mesmo cestinho de palha que o sal, esperei esfriar observando o vazo da planta que ficava ao final da escada, seu cale era realmente verde, e suas folhas faziam um formato semelhante ao de uma mão, se é que uma mão poderia ter tantos dedos assim, sorri, abobalhada pelo meu próprio devaneio. Olhei para o chá e vi o reflexo do meu próprio nariz no mesmo, estava distorcido pelo fato de que o saquinho contendo os ingredientes secos estava ali atrapalhando a refração da luz, tomei a pequena xícara com ambas às mãos e a levei aos lábios, tomei desta um gole pequeno, o chá estava ainda muito quente. O som ambiente era de um piano e uma voz calma, havia também uma bateria e... Voltavam novamente as pessoas que desciam a escada enquanto eu a subia, normalmente aquele local era bem vazio, logo me senti incomodada. Tratei de tomar meu chá mais rápido mesmo que ainda quente. O grupo de pessoas estava um pouco menor, eu acho – não que eu realmente tenha reparado na quantidade que estavam antes, mas – sentaram-se na mesa ao lado, aonde eu não havia notado, mas ainda estavam as coisas deles, um cachecol azul, uma mochila e mais qualquer coisa que eu não quis olhar.

Recolhi minha bolsa, colocando-a junto a mim, logo pegando as pastas e saí mesmo sem ter tomado todo o conteúdo da xícara. Desci as escadas apressada, deixei o dinheiro contado no balcão, agradeci monossilabicamente e saí. Dobrei uma esquina, atravessei duas ruas e continuei andando, nada muito devagar, não olhei as horas antes de sair e na rua escura não tiraria o celular do bolso, atravessei novamente, agora para a esquerda sem olhar, ouvi derrepente um barulho de uma parada brusca de um carro – foi aqui que eu pensei “agora morri” – A primeira coisa que me veio à cabeça foi ela.

Aqueles cabelos dourados e curtos de forma desuni-forme, aquele sorriso infantil e aqueles olhos claros. Todo o jeito escandaloso de dizer “Meu cabelo está grande!” parecia até mesmo uma réplica minha. Aquele abraço de saudade, e a falta de um Adeus, que me doía o peito mesmo depois de tanto tempo, a música que você escolheu aleatóriamente ainda estava no meu mp12 e eu a ouvia quando o shuffle fazia com que ela caísse na música à ser executada.

1 contaminados adivertem:

Victor Hugo Pieroni disse...

'-' Caramba, vim aqui conhecer o blog, e já me deparo com este texto, impecável na descrição e no sentimento!

Parabéns

PS: Impressão minha, ou tem um toque de nostalgia aí?! rs Até mais ^^