
Percebi devido ao reflexo da luz na neve, que eles se aproximavam!
Tratei de trancas as janelas e a porta, fechar as cortinas e me colocar em baixo do cobertor abraçado à Lilás, uma doce boneca de pano, velha e desbotada, cuja cor dos cabelos lhe dava o nome. Em posição fetal, eu a abraço forçando-a contra meu peito, enquanto puxo o longo cobertor rosa-chá para mais perto, para cobrir-me por completo. Quando ouvi baterem aos portões da muralha de pedra, longa e grossa, nada passava por ali, então soou o tom belo e raro do sino que avisava “portões abrindo”, quando todos os criados correm até lá, com suas armas de fogo, todas de porte pequeno, contendo cerca de 6 balas em cada.
Ao longo do comprido corredor escuro pode-se ouvir o som dos disparos que mais se comparam com fortes batidas em metal.
Medo, sim, muito medo.
Medo domina a minha mente desde o dia 3 de setembro de 1992 ao Meio dia e quatorze.
Quando senti o quente, úmido e salgado suor de meus olhos correr pelas minhas bochechas pálidas comecei a gritar desesperadamente.
Algo me dizia que eu deveria dizer a eles que estava ali, de todo o jeito possível!
Pelo corredor agora ecoavam lâminas, finas e bem afiadas, que lançavam até faíscas quando postas uma contra as outras, foi bem no momento... umas delas atravessavam um músculo que era provavelmente o intestino delgado.
Senti me puxarem, fiquei imóvel, não respirava, não controlava mais nada de meu corpo, a luz fora se apagando devagar, aquela intensa luz branca que pairava sobre a janela de vidro espesso e forte, altamente resistente ao frio, o tiquetaquear ensurdecedor do cuco que se localizava no corredor oeste, o qual dava acesso aos dormitórios e à sala de estudos, onde eu morava.
Meus cabelos se grudavam meu rosto devido ainda às lágrimas que de meus olhos jorravam, cada vez mais e mais intensamente, eu queria mesmo me debater, mas algo me dizia ao pé do ouvido que deveria ficar bem quieta para meu próprio bem.
No exato momento do término da frase, retiraram o cobertor de minha cabeça, logo deixando cair até o chão, seguraram meu rosto com delicadeza. Meus olhos abertos inadequadamente sem expressão me denunciavam todo pavor e medo que de repente saltaram de mim. E então só lembro-me de ter acordado em outro quarto, agora sem luz, sem nada.
Apenas um meio fio amarelo ousava entrar por entre um espaço da pedra e outro.

0 contaminados adivertem:
Postar um comentário